Luz, Gesso e Imagens de Consumo


6 Práticas correntes: a luz enquanto construtora de imagens

A análise da iluminação de interiores do século XX revela determinadas condições que permeiam a linha temporal do projeto luminotécnico no brasil. Em primeiro lugar, desde partir do advento e da subsequente popularização da energia elétrica para o consumidor médio, os avanços tecnológicos nos sistemas das luminárias demonstram-se tímidos, porém de grande impacto – o método operativo foi construído ao longo do projeto moderno, às pressas, mais pela falta de uma linguagem à qual recorrer do que por uma expressão desejada (ou mesmo coerente). A iluminação artificial moderna foi criada pela necessidade da arquitetura em se adaptar às novas condições e demandas de uma sociedade em constante progresso.

Pode-se afirmar que a criação de programas complexos, a verticalização extrema e a aglutinação de funções e passagens foi, em grande parte, viabilizada e acompanhada pelo progresso tecnológico das formas de iluminação artificial. A diversidade e complexidade de compartimentos e circulações que a globalização demanda pode ser compilada no texto-manifesto de Koolhaas (2005: 494) intitulado Bigness or the problem of large (“grandeza ou o problema do grande”, em tradução livre), no livro S, M, L, XL: “exclusivamente através de seu tamanho, estes edifícios adentram um domínio amoral, além do bom e do mau […] seus impactos são independentes de suas qualidades”.

No discurso de Koolhaas, esta arquitetura é amoral e não tem uma postura conceitual necessariamente rígida ou mesmo definida. Ela dialoga com os conceitos de flexibilidade e mutabilidade herdados do pós-modernismo, não se prende a amarras teóricas e tampouco se preocupa em atender expectativas sociais: o objetivo se encerra na intensidade do seu impacto. Esta arquitetura também se demonstra sistematicamente engajada com as dinâmicas de mercado em seu caráter mais líquido, volátil e marqueteiro. Embora a postura de Koolhaas seja extremamente crítica e tangencie os aspectos teóricos e filosóficos da disciplina, os comentários do arquiteto e escritor caracterizam um modo de produção dos espaços que permanece do fim da década de 1990 até as práticas vigentes do século XXI.

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Figura 6: Biblioteca de Vyborg, Rússia. Fonte: Helsinki Sanomat (jornal) hs.fi
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Figura 7: Terminal 4 do Aeroporto de Barajas, Madrid. Fonte: Richard Rogers (escritório) richardrogers.co.uk

A arquitetura dos dias atuais configura-se como um leque de soluções pluralista e mutável, unificada por tendências generalistas voltadas para a sustentabilidade e urbanidade porém ainda repleta de expressões regionais de escolas específicas. Esta nova arquitetura parece tomar as apropriações do início do pós moderno e elevá-las a nível de condição orientadora de projeto. Ao invés da ironia palpável da produção das décadas de 1970 a 1990, a apropriação da herança arquitetônica agora assume um tom de sobriedade.  No projeto luminotécnico do escritório inglês Speirs + Major para o terminal 4 do aeroporto de Barajas, em Madrid (figura 7), as instalações invasivas que passam pelas grandes lajes em concreto dos corredores são transformadas em uma densa grelha de luminárias de fluxo luminoso moderado onde as noções de espaçamento, proximidade e distância são distorcidas. A própria consciência da existência de uma grelha com inúmeras fontes no teto é transformada, pois a iluminação dos corredores é difusa e contínua. A solução técnica adotada pelo escritório apresenta determinados princípios de uma inversão do conceito de iluminação indireta: a luz nasce de uma fonte claramente definida, com foco direto, mas com uma sensibilidade em sua aplicação que a difunde em uma distribuição uniforme.

O projeto de Barajas em 2005 demonstra uma reciclagem latente dos conceitos de luz moderna existentes na obra de Alvar Aalto para a Biblioteca de Vyborg, em 1929 (figura 6). O arquiteto finlandês, expoente da arquitetura moderna europeia, perfura o plano do teto com grandes domos de vidro reforçado que atravessam o concreto da laje. Os domos são ainda posicionados de forma que o ângulo de incidência solar jamais seja perpendicular à superfície de cobertura, fornecendo então uma luz difusa que invade o ambiente de forma a evitar o ofuscamento. Aalto, no fim da década de 1920, e Speirs, no auge da globalização do século XXI, compartilham um modo operativo conceitualmente similar no que diz respeito à modelagem da luz, e não por acaso – os exemplos de apropriação da luz moderna se encontram em crescente manifestação na arquitetura vigente, tanto em virtude de uma necessidade da retomada do processo de valorização da disciplina quanto pelas novas necessidades de atendimento a normas técnicas de iluminância e conforto visual. Posterior ao processo de negação e crítica ao modernismo apresentado no período pós-moderno, a arquitetura de vanguarda modernista é retomada como herança de boas práticas de projeto, agora desvinculada de seu caráter político (HARVEY, 2014).

No Brasil, o processo de mercantilização da arquitetura residencial na forma de grandes empreendimentos multifamiliares se expandiu de maneira inédita neste início de século, porém em termos tecnológicos pouco muda – se por um lado é observada a diversificação das possibilidades no repertório de revestimentos, sistemas de automação e aparatos de redução do impacto ambiental à disposição do projetista, por outro as metas de lucro das grandes incorporadoras e fundos de investimento constrangem o setor à manutenção do status quo. As construções tomam a forma de produto, conforme articulado no início do artigo; produto este libertado de quaisquer responsabilidades sociais ou urbanísticas. A intenção e o conceito destes projetos se restringem ao jogo das normas de regulação urbanística. O eixo vanguardista da arquitetura nacional, entretanto, retoma um processo de definição de uma identidade própria influenciada pelas escolas carioca e paulista do movimento moderno, embora suas soluções se resumam a uma elite intelectual pouco representativa. Na elite financeira dominante, contudo, há uma predileção por discursos projetuais pouco articulados com a vanguarda que serão apresentados a seguir.

O gosto dominante na iluminação da arquitetura de interiores nacional também pode ser definido como plural e diversificado. É possível, contudo, traçar um caminho comum na produção de imagens que são divulgadas como modelos destes espaços. As soluções de iluminação catalogadas nos anexos II e III, por exemplo, demonstram um discurso projetual claro que caminha em direção à construção de imagens de nobreza e sofisticação através de operações geométricas que transformam o teto em um espaço autônomo de desenho.  Denise Guimarães (2010: 221), em sua dissertação de mestrado titulada A decoração nas residências de elite: a produção material e simbólica dos espaços da casa, apresenta uma valiosa contribuição à discussão ao entrevistar a arquiteta paulistana Sandra Pierzchalski, profissional atuante no segmento de interiores de alto padrão:

[…] se você chega, e entra num ambiente que você tem: pé direito baixo, cheio de sanca, né, tem bastante sanca, aqueles montes de cortinas, as janelas pequenas, aquilo te dá uma sensação de opressão, pra qualquer pessoa que entrar.[…] o pessoal gosta muito de neoclássico: “não, porque o contemporâneo é medonho, é isso é aquilo” {citando um cliente}.[…] Porque tudo vem com a conotação de que “ah, isso é bacana” {citando um cliente quando se refere ao estilo neoclássico}, isso remonta a riqueza, a status social, então às vezes o simples ele vem e fala: “ah, é muito simplesinho” {citando um cliente quando se refere a ambientes de inspiração moderna} (grifos meus)

As experiências da arquiteta mencionada relevam uma frustração na relação entre profissional e cliente: a projetista, possuidora do conhecimento técnico e munida de um repertório de intenções alinhado aos interesses de sua atividade, evoca um vocabulário que expressa sua prática de maneira particular (“contemporâneo”, “simples”). O cliente, na outra ponta do processo, apresenta uma postura definida através de um referencial estético basicamente composto por imagens de venda absorvidas. As revistas, os estilos de vida, os filmes e todas as expressões de cultura e mercado que compõem seu repertório de ideais de habitação são parte de expectativas que teoricamente deveriam ser atendidas pelo profissional contratado. Inequivocamente, ele quer construir uma imagem de si mesmo através do projeto, e relevar neste sua posição social em forma de ícones e figuras do espaço construído. Os termos utilizados também se mostram de grande valor para o entendimento da psicologia do projeto luminotécnico: “riqueza” e “status social” em oposição a “simplesinho” [sic].

O cliente, não obstante, é o tomador de decisões, o provedor financeiro do empreendimento, apesar da ausência de uma bagagem cultural que possa dialogar com as premissas do arquiteto. O resultado é determinado por um embate onde o conflito de referências se torna protagonista do projeto, em detrimento das necessidades funcionais dos ambientes. A discussão, então, gira em torno de uma questão central que é delimitada pelo embate entre as responsabilidades do profissional enquanto agente produtor do espaço e as incumbências de um projeto que se tornou ferramenta de venda do mercado imobiliário. O processo, repetido diariamente na prática dos profissionais do ramo, reforça o caráter do projeto enquanto produto e permeia a cultura de que a disciplina, originalmente inserida em uma vasta matriz de atribuições, esteja circunscrita às conjunturas do ditado popular “gosto não se discute”.

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Figura 8: Apartamento Av. Paulista, São Paulo Fonte: piratininga.com.br
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Figura 9: Casa na Vila Matilde, São Paulo Fonte: Pedro Kok, terraetuma.com.br

Do outro lado do mercado e, com um distanciamento considerável do consumidor médio, a partir da década de 2010 algumas soluções de forro e iluminação começam a estabelecer uma linguagem de ruptura tanto com as expressões neoclássicas quanto com as soluções de gesso desenhado das construtoras. Estes novos projetos expõem os materiais e a estrutura em detrimento da vedação com acabamentos nobres, muitas vezes trazendo à tona texturas, volumes e intenções de edifícios de décadas anteriores (especialmente 1940 a 1970) que permaneciam ocultas través dos rebaixos. Acompanhando este tipo operação, inicialmente reservada com exclusividade à vanguarda intelectual e aos periódicos especializados, a estética definida pelos materiais à vista e pela iluminação sobreposta passou por um processo de popularização considerável até os dias atuais. Um tipo de projeto que antes era visto como sinal de empobrecimento passou a ser sinônimo do despojamento e despretensão almejados pela geração do milênio.

O industrial chic americano nasceu da necessidade de habitar a partir do acelerado processo de gentrificação ocorrido em Manhattan, nas décadas de 1970 e 1980, compelindo o êxodo de uma população de classe média baixa que buscou em fábricas e galpões abandonados alternativas de moradia. O estilo com acabamentos à mostra e instalações improvisadas convivendo com aparatos industriais rapidamente foi apropriado pelo mercado nos grandes espaços onde tijolos, concreto e instalações aparentes se tornaram parte integrante da ideia de loft nova-iorquino. O projeto do escritório Piratininga Arquitetos para o apartamento na Avenida Paulista, em São Paulo (figura 9), data de 2009 e figura como um dos pioneiros no estilo a ganhar atenção da mídia especializada nacional. A laje cogumelo do edifício de 1952 não é mais escondida pelo plano liso do gesso e, através de uma operação diametralmente oposta, a estrutura é evidenciada e torna-se protagonista da iluminação.

Hoje, o termo decoração industrial conta como mais uma alternativa no leque de opções estéticas às quais o arquiteto tem acesso e das quais pode se apropriar. O projeto luminotécnico, nesta condição, pode mostrar suas entranhas ao deixar expostas as tubulações de passagem das instalações elétricas e revelar os sistemas óticos utilizados em luminárias pendentes e canhões de luz. A estética industrial nacional dialoga, em sua superfície com muitos aspectos da honestidade modernista articulada previamente. Uma análise mais detalhada dos métodos construtivos empregados, contudo, revela projetos que muitas vezes se concentram em fornecer um aspecto inacabado através do enobrecimento das superfícies com revestimentos dispendiosos (tais como papéis de parede e massas texturizadas), caracterizando uma intenção fundamentalmente reversa à redução de expectativas plásticas intrínsecas ao fenômeno de ocupação espontânea que deu origem ao movimento.

É seguro afirmar que as práticas de iluminação vigentes são fruto de uma sociedade em intensa transformação. A multiplicidade de soluções para diferentes públicos faz do arquiteto e iluminador um profissional versátil e, em última instância, mutável. Entre sancas com molduras neoclássicas, rasgos lineares em forros de gesso de aparência asséptica e lajes com nervuras e formas expostas, luminárias pendentes e pontos de luz embutidos, as faces da luz se revelam parte de um repertório explorado na maioria das vezes com intenções de venda, de construção da imagem dos próprios clientes, despontando raramente com intenções de uma produção de espaços adequados ao morador e seu contexto. A leitura da iluminação é facilmente entendida através destes signos, que podem ser relacionados entre o neoclássico, a imponência e a nobreza, ou o industrial e o despojamento, o cool, culminando no que poderia ser classificado como dicotomia da luminotécnica, e em algum espaço entre estes dois símbolos de moradia se encontra o consumidor médio. Portanto, se as práticas da elite são propagandeadas como ideais pela mídia e algumas vezes pelos próprios profissionais, tornando-se objetos de adaptação e improviso em larga escala ao longo do tempo (GUIMARÃES, 2010), quais seriam os rumos que a iluminação brasileira tem pela frente?

A definição de uma linha de raciocínio que possa indicar quais são os próximos passos da luz no cenário brasileiro deve passar pelo próprio questionamento sobre a existência da mesma. Não é possível afirmar que determinada tendência observada irá se transformar em prática de mercado; entretanto, a popularização de certas soluções e suas assimilações pelo setor imobiliário e pela indústria da iluminação podem apontar um caminho. É coerente, inclusive, evidenciar que a disseminação de espaços inspirados no estilo industrial presente na última década abre precedentes para uma abordagem díspar do projeto luminotécnico no cenário da arquitetura de interiores nacional, ainda que eventualmente dissimulada através de operações que se aproximam da cenografia e do abrigo decorado pós-moderno de Venturi.

A concepção do escritório Terra e Tuma (figura 9) para uma casa na Vila Matilde, bairro de classe média da zona leste de São Paulo, obteve projeção em nível mundial no ano de 2015 ao subverter de maneira radical o modo através do qual arquitetos lidam com sua profissão e com projetos de uma forma geral. A iniciativa está inserida em um momento da onde a discussão sobre habitação e o papel do profissional na viabilização da mesma torna-se de uma relevância sem precedentes, principalmente quando considera-se a descontrolada expansão urbana das últimas décadas e a crise no setor imobiliário que atinge tanto a dimensão de mercado das grandes incorporadoras quanto a dificuldade no acesso à moradia pela maior parte da população. No projeto da Vila Matilde, o coletivo Terra e Tuma enfrenta um cenário que muitos arquitetos olhariam com apatia: um terreno com sérias deficiências e uma cliente com recursos financeiros escassos. A casa, no entanto, é transformada em uma expressão projetual que pode ser considerada das mais relevantes nas últimas décadas no cenário arquitetônico brasileiro.

A primeira subversão encontrada no projeto, quase acidental, se dá através de um fenômeno sobre o qual o arquiteto tem pouco ou nenhum controle: a projeção midiática que a casa recebeu. Ao ser publicada em diversas plataformas e editoriais online especializados, posteriormente alcançando revistas e jornais de interesse geral e, ultimamente, tornando-se capa da campanha de valorização do profissional de arquitetura promovida a nível nacional pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo, a casa na Vila Matilde desponta como uma rara exceção onde uma tendência de arquitetura é criada nas classes menos privilegiadas. O processo de transformação da moradia das elites em objeto de desejo é invertido: desta vez, o tráfego do bom gosto acontece de baixo para cima. A segunda subversão acontece no próprio cerne da atuação profissional: enquanto a maioria dos arquitetos almeja o cliente ‘perfeito’, provido de recursos financeiros ilimitados para a concretização de seus anseios formais, Terra e Turma provam que é possível produzir um espaço de qualidade em condições cotidianas.

A terceira subversão, de maior interesse para o presente trabalho, é realizada no plano da luz. O plano do teto se mostra tímido, presente somente nas linhas que compõem a laje pré moldada que se espalha pelos interiores; não há gesso, rebaixos, sancas, recortes ou outras operações de ocultamento da laje. Através de uma espécie de rotação que opera em todas as superfícies verticais, incontestavelmente imbuídas de seu caráter construtivo através dos blocos de concreto aparentes, a iluminação é completamente deslocada para as paredes. Luminárias com tubulações aparentes que nascem em pontos adjacentes à laje de piso e se prolongam até o limite com o teto se replicam tanto no interior quanto nas áreas externas da edificação, e são multiplicadas ao longo dos ambientes compondo uma espécie de solução unificante, generalista, que assume diversas características exclusivamente através da mudança de seu posicionamento.

Faz-se necessária, novamente, a distinção entre consumidor médio e vanguarda: a expressão analisada pelo presente estudo não deve ser lida como um futuro padrão da luz artificial brasileira. Entretanto, a gradual transformação de expressões do fronte intelectual arquitetônico em produtos de consumo de massa, observada tanto nas décadas de 1940 a 1970 quanto no pós moderno brasileiro, pode indicar eventuais mudanças de paradigma nas expectativas plásticas do consumidor médio no que diz respeito ao gesso, aos rebaixos e às sancas. É seguro afirmar, contudo, que as soluções continuarão representando pluralidades distintas para classes distintas, com objetivos específicos na criação de imagens no interior das habitações. O que se espera, ultimamente, é um repertório mais diversificado na iluminação, que procure um distanciamento das soluções pré concebidas e caminhe em direção a novos horizontes onde contexto e necessidades locais se destacam enquanto protagonistas do projeto luminotécnico, assim como na expressão de Terra e Turma para a casa na Vila Matilde.

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