Luz, Gesso e Imagens de Consumo


4 A linguagem da luz: desenvolvimento da iluminação residencial no Brasil

A introdução das tecnologias de iluminação artificial através da energia elétrica data do fim do período colonial, no final do século XIX, porém há divergências quanto à primeira cidade a receber o sistema. Enquanto Fróes da Silva (2006: 10) afirma que o sistema foi implementado através iluminação dos interiores da antiga estação de trem onde hoje se encontra a Central do Brasil, composta por “apenas seis lâmpadas […] acionadas a partir de energia elétrica”, Brandão (2014: 216) argumenta que outras cidades utilizaram a iluminação com eletricidade antes do Rio de Janeiro. Dunlop (apud DERZE, 2014: 114) elege Campos dos Goytacazes como a primeira cidade brasileira a produzir eletricidade. É de caráter convergente, entretanto, afirmar que as primeiras formas de utilização da tecnologia no Brasil se deram através de aplicações em vias, monumentos e equipamentos de uso público. Esta transição marca o fim da iluminação pública através do combustão de chamas a gás, que por sua vez substituiu, no início do século XIX, o precário sistema de lampiões e candeeiros abastecidos por óleos de origem animal, vigente por mais de dois séculos.

Além de promover mudanças profundas no ritmo das cidades brasileiras no início do século XX, a iluminação através da eletricidade teve um forte papel simbólico de legitimar o país com os ideais progressistas e tecnocráticos de uma Europa onde borbulhavam os primórdios do movimento moderno. No Brasil, a arquitetura e o urbanismo buscavam a higienização e o embelezamento das capitais europeias. A reforma urbana era um tema em discussão, e as ações de Pereira Passos no início de século buscavam transformar a cidade do Rio em exemplar da Paris tropical. Novamente, as dimensões do significado são quase tão emblemáticas quanto o avanço técnico per se e muitas vezes transbordam o seu perímetro. Derze elabora sobre o impacto da iluminação noturna: “Parece que a experiência psicológica humana encontrou na variação da imagem da cidade o oxigênio para sua modernidade” (2014: 21), “é como se a escuridão fosse empurrada para fora da cidade” (2014: 64). Estas transformações podem parecer relativamente distantes de uma realidade de globalização e a atual condição essencialmente urbana do Brasil; porém, basta imaginar o impacto que, por exemplo, a chegada da energia elétrica tem em uma cidade isolada de interior, para se ter um panorama das oportunidades e implicações geradas pelo acesso à energia na época.

Dentro das habitações, a popularização da iluminação artificial elétrica se deu gradativamente durante a primeira metade do século XX –  especialmente no Rio de Janeiro, que até então sustentava o título de Capital Federal e, consequentemente, era o principal campo de atuação das inovações no setor de energia pública. Nos demais estados e, principalmente, nas áreas rurais, o processo de transição foi consideravelmente mais lento e, em alguns casos, sequer chegou a se concretizar (ANEEL, 2008). A iluminação por energia elétrica despontou como alternativa segura para a luz nos espaços internos – a utilização do gás encanado apresentava complexos requerimentos de instalações e era impopular devido ao risco eminente de explosões; portanto, a maioria dos domicílios ainda empregava o sistema a óleo, na contramão dos avanços promovidos pelo gás nos ambientes externos (FERREIRA apud BRANDÃO, 2014).

No trabalho de Brandão et al (2014) encontramos uma valiosa contribuição do registro histórico das condições luminotécnicas nas residências cariocas, através do estudo de caso da Casa Rui Barbosa – antiga residência do diplomata e escritor que sofreu diversas transformações de uso durante sua existência. A construção data de 1850, foi adquirida por Rui Barbosa em data posterior e serviu como sua residência até o ano de 1923. Posteriormente, em 1924, o imóvel foi comprado pelo governo federal, passando pelo processo de tombamento 12 anos depois. O registro da Casa Rui Barbosa, consequentemente, pode ser lido enquanto um exemplar das práticas de iluminação residencial das décadas de 1920 a 1930.

A localização da residência, no bairro de Botafogo, apresenta uma inserção urbana que gozava dos privilégios de infraestrutura de uma zona habitada pela aristocracia no fim do império e, considerando a posição privilegiada de Rui Barbosa enquanto advogado da concessionária de energia na época, é coerente afirmar que o objeto reflete a realidade de uma pequena parcela da população. A edificação, incontestavelmente, não deve ser lida como um padrão de residência urbana do período em função de sua posição favorecida, porém configura uma preciosa memória dos avanços que ocasionalmente se popularizariam pela cidade.

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Figura 1 – Técnicas de iluminação e adaptação tecnológica na Casa Rui Barbosa Fonte: Brandão et al (2014)

Na figura 1 é evidenciada uma transição entre os dois sistemas de iluminação mencionados. No teto, um lustre pendurado, já designado para instalação de lâmpadas incandescentes; na parede, uma arandela originalmente utilizada para iluminação a gás onde “o tubo sinuoso condutor […] serviu como tubulação para se passar o fio da rede elétrica”. Nos corredores, pendentes em formato de globo promovem uma iluminação mais difusa, fazendo proveito da claridade refletida no plano do forro para distribuir a luz pelo ambiente. Deve-se observar a ausência de iluminação indireta no plano do forro – a única técnica presente de controle de ofuscamento se encontra nas luminárias decorativas, com as cúpulas obstruindo a luz direta.

A estética europeia de decoração, corriqueira no ideal de moradia das classes privilegiadas brasileiras, continua a ser refletida no que Derze chama de “hierarquia estética” (2014: 148) presente no país que importava toda a tecnologia de iluminação. Valores operativos mais contundentes, tais como a adaptação contextual e utilização de materiais adequados ao clima local, só foram oficialmente introduzidos no repertório de práticas espaciais durante o movimento moderno brasileiro. O forro recoberto com ripas de madeira pintada e os adornos decorativos nas no encontro com o teto da Casa Rui Barbosa refletem uma concepção de teto alinhada com os ideais estéticos dignos de um residência da Paris tropical.

Qual seria então o momento em que ocorreu uma transição de materiais e tecnologias no plano do teto das residências brasileiras? O presente estudo dispõe de indícios sobre uma vasta utilização do gesso enquanto elemento decorativo pelo mercado de construção já com elevada desenvoltura e permeabilidade em 1940 (ver Anexo I), indicando que a popularização da técnica até o consumidor residencial se consolidou antes da década citada.

A Revista Acrópole foi publicada entre os anos de 1938 e 1971, caracterizando-se enquanto uma publicação especializada em arquitetura nos seus mais diversos meios: projetos, obras, tecnologias, interiores, edificações, fachadas, urbanismo, paisagismo, crítica e teoria, entre outros. A publicação, de origem paulistana, demonstra em suas edições a intenção de extrapolar os limites da regionalidade e aborda expressões construtivas a nível nacional e internacional em diversas tipologias, escalas, programas e contextos.

A Acrópole apresenta o termo gêsso [sic] desde os primeiros exemplares (há incidências indexadas com data de 1938), porém a apresentação se dá, principalmente, em matérias que abordam reformas e construções de teatros e cinemas, muitas vezes enaltecendo a qualidade acústica da solução e sua segurança contra o fogo tanto no plano do teto quanto em detalhes verticais em fechamentos, pilares e balcões.  Inúmeros anúncios de companhias que ofereciam serviços relacionados a aplicações em gesso também são encontrados (ver Anexo I), apresentando a oferta de serviços que quase sempre se referem à construção de detalhes decorativos e à estética neoclássica. O termo rebaixo, apesar de estar presente em certas edições da publicação desde 1958 (ed 231), se refere à criação de reentrâncias e pequenas escavações em superfícies para instalação de iluminação indireta – não necessariamente no forro.

O termo sanca aparece somente na edição de número 179 (março de 1953: 75), na matéria intitulada Arquitetura e Iluminação. A partir desta incidência, o termo é empregado com certa timidez ao longo de outras análises sobre soluções construtivas em edificações residenciais, porém sempre acompanhado dos termos iluminação e indireta, como em “sanca de luz indireta”, “sanca luminosa” (ed. 224, 1957: 304), “sanca de iluminação escondida” (ed. 250, 1959: 119) ou somente “sanca de iluminação” (ed. 226, 1957: 391). O termo parece exigir uma qualificação quando publicado (em contraste à autonomia que hoje assume no vocabulário corrente), trazendo ao estudo a hipótese da existência de um ineditismo para a época, mesmo se tratando de uma publicação voltada para o público especializado.

Um ponto de esclarecimento quanto à utilização do termo sanca pode ser encontrado na matéria Dicionário da Arquitetura Brasileira, escrita pelos arquitetos Eduardo Corona e Carlos Lemos, e publicada em fascículos mensais na Acrópole de acordo com a ordem alfabética dos termos empregados.  A edição da coluna em agosto de 1961 (ed 273: 301) apresenta a seguinte descrição:

SANCA: Nome que recebe a parte do telhado assente sôbre [sic] a espessura da parede. Em geral, a expressão é usada nos casos de paredes muito espessas, havendo dois frechais. […] Nome que se dá à CIMALHA de perfil convexo, em geral aquela que concorda o plano de uma parede com o teto do compartimento. Hoje em dia dá-se o nome de sanca à moldura de gêsso [sic], de qualquer perfil, que possibilita a instalação de luzes indiretas ao longo das paredes, na altura dos forros.

A definição de Corona e Lemos aponta indícios de que, apesar de soluções de iluminação indireta fazerem parte do vocabulário arquitetônico da época, o termo sanca como operação autônoma de iluminação artificial necessitava de esclarecimentos adicionais. É possível afirmar ainda que os métodos construtivos das sancas de iluminação indireta da época diferem dos atuais, principalmente em função da utilização de mistura de trechos de laje estrutural com enchimentos em gesso ou determinados aglomerantes (ver detalhe do projeto de Aristo Mila publicado em 1957, Anexo I).  A pesquisa das edições indexadas da publicação não mostra evidências, entretanto, do período em que a transição entre a técnica mista (anteriormente citada) e as aplicações correntes (que utilizam a amarração de placas e estruturação de perfis leves sob lajes) possa ter ocorrido.

Também se torna necessário delinear as limitações tecnológicas que desempenharam um papel importante na desenvoltura com que os arquitetos empregavam soluções de iluminação indireta. Considerando que a comercialização em larga escala das lâmpadas fluorescentes compactas teve início em 1938, seria possível especular uma chegada tardia da tecnologia ao Brasil, sobretudo estimando-se um processo de importação da tecnologia para o cenário nacional. Detalhes construtivos fichados no presente estudo, oriundos dos projetos publicados na Ágora evidenciam em desenhos técnicos a utilização de lâmpadas de globo nas aplicações de sancas em interiores residenciais até a década de 1950, o que poderia apontar uma dificuldade de acesso às lâmpadas fluorescentes no mercado nacional.

Entretanto, uma outra edição da publicação de 1941 apresenta indícios da chegada de soluções de iluminação indireta fluorescente antes do meio de século:

Difundida como já se acha a LUZ FLUORESCENTE, Acropole [sic] apresenta aos seus leitores, varios aspectos internos dessa maravilha de perfeição e beleza, hoje indispensável em qualquer ambiente comercial e mesmo particular (Revista Acrópole, ed 41, Setembro de 1941: 203)

A matéria, misto de anúncio publicitário com redação, apresenta um discurso que revela particularidades bastante específicas do cenário da iluminação indireta na época. Podemos elaborar, então, que no início da década de 1940 a associação de molduras em gesso no plano do forro com soluções de iluminação embutida já permeava o mercado de construções e reformas. Há indícios fortes de uma recente chegada da tecnologia (“como já se acha”), uma utilização largamente voltada para ambientes comerciais (“qualquer ambiente comercial e mesmo particular”) e uma forte associação estética voltada para os ideais clássicos (“maravilha de perfeição e beleza”). O projeto luminotécnico já se vinculava a ideais de ambiência, produzindo imagens de consumo que viriam a ser explorados com frequência nos anos seguintes.

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Figura 2: Residência no Jardim Paulista. Fonte: Revista Acrópole, ed 183, 1953
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Figura 3: Residência em Indianópolis.Fonte: Revista Acrópole, ed 217, 1956

As figuras 2 e 3 apresentam diferentes dimensões conceituais na aplicação da mesma técnica. Datando de 1953 e 1956, respectivamente, o projeto luminotécnico transita entre expressões funcionais e decorativas. No projeto de 1953 (figura 2), o forro funciona enquanto mobiliário e ornamentação, compõe uma efetiva locução sobre as intenções do arquiteto e transmite um discurso que dialoga com o exagero – a quantidade de pontos luminosos sobre o sofá não aparenta um diálogo coerente com as necessidades de luminosidade do local, sobretudo quando é considerada a luz inversa refletida no plano do teto. A luz assume uma atitude de exibição e suntuosidade, revelando suas disposições enquanto decoração para um fim específico. É apresentada então a figura de uma atitude classicista, mesmo que envolvida por uma demonstração tecnológica de ponta para a época.

A solução encontrada em 1956 (figura 3), contudo, estabelece uma relação funcional muito mais ligada à transmissão de uma luz exterior que se extingue no período noturno. A sanca posicionada em cima da porta, viabilizada em uma simples linha reta que também comporta um cortineiro, dialoga com o interior de modo intimista, fornecendo para as horas desprovidas de iluminação natural uma mimetização do que viriam a ser suas características materiais durante o dia.

Não fica evidente um momento de transição específico entre as duas soluções – é seguro afirmar, portanto, que as práticas acontecem simultaneamente em determinados contextos, para determinados clientes. A introdução de um horizonte cultural ou prática de interiores que viesse a transformar o projeto luminotécnico entre décadas permanece como incerta, apesar do recorte temporal estar associado ao auge da estética modernista no cenário nacional. Não há uma diferenciação aparentemente clara em recortes do que seria uma atitude art déco, ou uma atitude moderna na iluminação dos interiores. A iluminação artificial transita entre diversas deliberações, de diferentes tipologias e demonstrações técnicas, assumindo uma posição transigente na expressão construtiva e na linguagem do projetista. O projeto luminotécnico, em contraste à uniformidade do início de século, fornece agora diversas caminhos, compondo diferentes constructos do vocabulário arquitetônico disponível para a época.

As práticas de iluminação catalogadas pela revista apresentam um repertório razoavelmente homogêneo até suas últimas edições, culminando com a interrupção da sua produção o fim da década de 1970. Os interiores residenciais registrados na publicação, entretanto, apresentam cada vez mais soluções de rebaixo e sancas. O teto gradualmente assume uma posição de elevado valor simbólico enquanto espaço de desenho e expressão criativa, enquanto as matérias publicadas na revista passam a abordar a iluminação com crescente preocupação e interesse.

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