Luz, Gesso e Imagens de Consumo


3. A dimensão histórica do gesso na iluminação

A gipsita, mineral desidratado vastamente conhecido como “gesso” (BAUER, 2001), assume empregos diversificados na construção civil e se confunde com a própria história do ofício. Segundo o Syndicat National Des Industries Du Plâtre (1982), traços de formas arcaicas de utilização do gesso foram encontrados em diversos períodos históricos da humanidade, porém sua popularização como solução construtiva factível se deu na França a partir do século XV. Até então, diferentes tipos de compostos com gesso eram utilizados para criar adornos e detalhes – tais como em pilares, abóbadas e arcos – que obtinham certa resistência e aderência devido à leveza do material; entretanto, suas aplicações eram reservadas a expressões artísticas e arquitetônicas de caráter extraordinário.  Não há registros, entretanto, de fontes específicas indicando um recorte temporal que defina o momento da transição entre a moldagem do gesso artesanal, in loco, e a utilização de molduras pré-fabricadas.

Acompanhando o desenvolvimento das técnicas de fabricação do material, o emprego do gesso para viabilização de planos construtivos horizontais e verticais se alastrou com tamanha rapidez que, em meados do século XVIII, 95% das novas construções ou reformas na França utilizavam o material (SYND, 1982). A mistura de gesso com outros agregados passou a fornecer mais resistência ao material durante o século XIX, consolidando sua posição como alternativa segura para a criação de elementos decorativos (em contraste com, por exemplo, a madeira, que apresenta alta suscetibilidade a incêndios). A partir do advento da usinagem em larga escala e industrialização do gesso, sua aplicação se populariza entre processos de moldagem local e métodos de acoplamento mecânico [vastamente conhecido como “construção a seco” (LEITÃO, 2005)]. No plano do teto das residências, entretanto, a aplicação do material ainda se limitava às funções ornamentativas.

A partir do fim do século XX, com as transformações radicais no modo de pensar a arquitetura e a cidade, a habitação e suas condições de salubridade passaram a ser consideradas alicerces para um projeto de modernidade. As condições de moradia do início de século, trazidas junto com uma revolução industrial que se alastrou pelo continente europeu, esgotaram práticas corriqueiras ligadas à de falta de saneamento, aos espaços mínimos e à insalubridade. Cômodos completamente enclausurados, por exemplo, configuravam práticas aceitáveis de produção dos espaços habitacionais.

Segundo Oliveira (2005: 14), é neste período que aparecem as janelas horizontais (em contraste com as verticais, amplamente utilizadas até então) que, ao maximizarem o plano de abertura horizontal e barrarem a meia altura a incidência vertical de raios solares, promoveram uma iluminação mais intensa e homogênea no interior das residências. A substituição de paredes sólidas por panos de vidro, por exemplo, destaca-se como outro modo operativo oriundo do modernismo que, além de estar carregado de dimensões conceituais e estéticas, promove uma luz que invade e lava os interiores. Ainda no que diz respeito à “visão moderna da luz” (OLIVEIRA, 2005: 2), é possível afirmar que o art nouveau, ao levar iluminação aos interiores de lotes profundos com a utilização de grandes claraboias em estruturas de metal e vidro, poderia ter sido uma elaboração embrionária do que viria a ser o ideal moderno de iluminação.

A transição do papel da luz, fundamentalmente promovida pelos arquitetos modernistas, inseriu a iluminação natural em uma nova categoria de itens necessários à habitação humana – antes tida como privilégio, esta passou a ser condição sine qua non de habitabilidade. Enquanto o movimento trouxe contribuições inestimáveis para estratégias de apropriação da luz natural, algumas de suas expressões elevam a luz a um status superior: de conjuntura ambiental, a iluminação natural passa a ser condição ordenadora e normativa do projeto arquitetônico. Fluxos, funções e distribuições de programa são dispostos em torno de eixos centrais ordenadores onde a luz é protagonista na relação entre espaço e forma. A luz também se caracteriza como um ponto central na abertura entre exterior e interior (OLIVEIRA, 2005: 358), estabelecendo caminhos para uma arquitetura que, entre ironias, críticas, negações e desenvolvimentos, se abrirá cada vez mais para sua condição urbana e sua relação com a cidade.

Nesta nova abordagem da cidade que abraça um misto de ideais progressistas com a dimensão humana da necessidade de habitar, novas soluções tecnológicas surgem como remédio para a doença da insalubridade que a revolução industrial provoca no continente europeu, atingindo sobretudo a classe trabalhadora. O movimento moderno extravasa as barreiras da construção e assume uma postura política enquanto projeto de humanidade. As estruturas em concreto armado assumem posição de agente viabilizador das as novas soluções para mazelas presentes nos grandes centros urbanos, com técnicas construtivas que foram gradativamente aprimoradas e importadas para o vocabulário construtivo brasileiro, que até então era delimitado por um leque de casarios de época, exemplares de arquitetura colonial, diálogos estéticos oriundos do império e expressões pontuais do art déco.

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